” “TODA A ARTE É COMPLETAMENTE INÚTIL”

O Retrato de Dorian Gray foi publicado na Lippincot Monthly Magazine, revista mensal Inglesa, em 1890 e posteriormente revisado para publicação em livro em 1981. Apesar de mais de cem anos terem se passado desde a sua publicação, ele continua popular e bastante lido, especialmente fora da Inglaterra. O livro é uma obra de arte sobre o Estetismo, e nele estão presentes a pintura, a literatura e o teatro, todos relacionados a uma percepção singular do fenômeno artístico, especialmente abordada por Oscar Wilde, o autor, no prefá- cio da edição em livro. Polêmico e genial, nada em sua biografia literária teve maior repercussão do que seu romance. Já em 25 de junho de 1890, cinco dias após a sua primeira publicação, Wilde defendia sua obra afirmando “I am quite incapable of understanding how any work of art can be criticised from a moral standpoint. The sphere of art and the sphere of ethics are absolutely distinct and separate” (WILDE, 1979). É neste contexto que o autor escreve o famoso prefácio para a edição em livro, que pretendo comentar. É preciso antes alertar para o fato de que este ensaio não pretende ser mais uma “exegese” sobre a obra de Wilde, nem tampouco mais uma “análise” literária. Ao leitor informo que decidi construí-lo a partir das reflexões, lembranças e redes referenciais que as sentenças do prefácio em mim geraram. As sentenças, transcrevo aleatoriamente no início de cada parte do meu texto como orientação, assim como trechos ao longo da nossa conversa. Para os leitores mais organizados, o prefácio completo ao final.”

trecho de “O PREFÁCIO DE UM RETRATO” disponível aqui 

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(…)Um observador é qualquer pessoa que vive em sociedade e processa suas informações por meio da linguagem durante sua vida (maturana e varela, 1998). É ele quem constrói sentidos, significados e realidades através de um processo indutivo de construção de um horizonte de conceitos. Consequentemente, conhecer alguma coisa significa “brincar de roda” no mundo das experiências (Erfahrungswelt), ou seja, construir e experimentar, como no espaço de potencialidades do lúdico, a realidade”.

trecho de “Brincando de roda no mundo das experiências: as raízes do Construtivismo Radical” publicado em Cenários Construtivistas: temas e problemas disponível aqui

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“(…) Guiados pelos pressupostos acima, sugerimos observar as narrativas curtas de Clarice Lispector descrevendo os possíveis efeitos do insólito presentes em cada uma delas. Escolhemos a coletânea de contos Laços de Família (LISPECTOR, 1960) não só pela sugestão da resenha editorial acima, mas pricipalmente pela sua relevância no conjunto da obra clariceana e na cena literária brasileira (NUNES, 1989). Assim, como resultado de nossas leituras, pudemos perceber quatro tipos de tematizações do insólito: a) a primeira sugere o insólito de uma forma insólita; um elemento banal, cotidiano é tematizado e transmutado como algo insólito, assim como vemos no conto “O ovo e a galinha”; b) uma segunda forma apresenta um elemento inesperado na narrativa (momento epifânico), sugere uma nova direção (expectativa) que não se concretiza, como nos contos “Amor”, “Laços de Família”, e “A imitação da Rosa”. c) algo oposto ao efeito acima, o terceiro se compõem de um elemento inesperado na narrativa (momento epifânico) que também sugere uma nova direção que, neste caso, efetivamente se concretiza (“A mensagem”, “Uma amizade sincera”); d) o último corresponde a presença de um elemento afastado das expectativas do senso comum, percebido (ou tematizado) como tal pelos personagens, vistos, nesta coletânea, em “Mal estar de um Anjo” “Onde estivestes de noite”. Analisaremos a seguir o conto “amor” para ilustrar estas propostas”.

trecho de “O INSÓLITO NAS NARRATIVAS CURTAS DE CLARICE LISPECTOR”  escrito em parceria com Rosane Fernandes Lira de Oliveira. Disponível aqui

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Bob morava num apartamento de dois quartos no quarto andar de um prédio. Ele convivia com seus vizinhos, que o ajudam com a comida e com a manutenção da casa. Sua faxineira comparecia toda a semana para a limpeza e ela precisava seguir uma ordem predeterminada de atividades na casa, pois qualquer mudança de rotina irritava Bob de uma forma incontrolável. E ele acompanhava a limpeza vistoriando todo o processo. Bob morava sozinho, pois sua mãe havia se mudado para uma casa de praia e, embora ele tenha tentado, não se adaptou ao novo local e sempre sumia ou se perdia por um tempo longo, o que fez com que sua mãe o levasse de volta para o antigo apartamento. Ele ficava bem melhor por lá, embora já tivesse caído da janela de seu quarto, do que numa casa. Bob era bem metódico: todo dia acordava no mesmo horário e arranhava a porta do vizinho – responsável por sua alimentação e diversão – para que ele abrisse a casa e depois, no fim da tarde, voltava para pedir que tudo fosse fechado. E Bob falava no telefone com sua mãe. Ela sempre ligava e ele sabia apertar o botão para atender no viva-voz. As conversas eram sempre saudosas. Mas Bob não ficava triste nem solitário. Ele gostava mesmo era de ficar em casa e, se possível, sozinho. Bob viveu muito tempo assim, acho que ele chegou até os 20 anos, o que é um longo tempo. Bob é um gato. A história acima parece tirada de algum livro de histórias fantásticas, mas é uma descrição das experiências de vida do gato Bob, ex morador do Pita, bairro de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro, gato esse que foi vizinho de familiares durante muito tempo. Tal situação faz qualquer leitor questionar a natureza do conceito de insólito (…)”

trecho de “REFLEXÕES SOBRE O INSÓLITO COMO EFEITO: NARRATIVA, LEITOR E SISTEMA LITERÁRIO” disponível aqui. Agradeço sempre a Rosane Fernandes Lira de Oliveira pela permissão de publicar a história do gato Bob.

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